MEU OLHAR PARA O DESEMPREGO
Desempregado, filho de carpinteiro (profissão que, como
outras da construção civil ou não, fora dos grandes centros urbanos, têm um
viver ativo inconstante) eu e meus irmãos, ainda adolescentes e conduzidos pelo
saudoso Pai Belarmino, vivenciamos na pratica a lida da roça (o puxar cobras
pros pés, como popularmente é chamada), isso em seus momentos de desemprego,
pois as terras dos arredores urbanos, á décadas passadas, eram respeitosamente
aproveitadas, arrendadas ou cedidas para o cultivo do milho, do feijão, da fava, da
batata, do jerimum, da mandioca, etc. e meu pai sempre fazia questão de botar
um roçadinho. Foi assim, sentindo desde cedo a importância de se buscar na pratica a sobrevivência, que nosso saudoso Pai nos educou para o trabalho. A costura de roupas (atividade de
minha Mãe), o tricô, o crochê, pelas domesticas e outras formas culturais de chamados bicos, também são praticas importantes de amenização da lacuna, do rastro de sofrimento
deixado pelo desemprego e o baixo salario mínimo no Brasil, pois de alguma
forma ajuda na árdua luta pela conquista do Pão pras famílias, em momentos de fome, de dor.
Mas o capitalismo selvagem, que a um bom tempo vem determinando as novas formas
de culturas sociais, vem transformando negativamente esta realidade, tornando os
trabalhador (as) cada vez mais escravos (as) de sua formal lucratividade, refém
ou preso a um mero fim empregatício patronal.
Com
isso, o amargoso, improdutivo ou ocioso tempo perdido no desemprego e nas horas
vagas do seu viver cotidiano, passou a ser também uma arma destruidora social, um perigo, um também responsável direto pelos grandes problemas sociais desta era
pós-moderna, pois, pode até não se imaginar, mas o desemprego ou a falta de emprego e um misero salario,
até que se prove o contrario, é no mínimo cumprisse desta triste onda cruciante
e antissocial que nos últimos tempos vem matando, desfigurando, excluindo,
desumanizando gente e destruindo sonhos, desejos, vidas. E não se pode jamais
duvidar da capacidade social regressiva de um ser humano, de um trabalhador ou
de uma trabalhadora, pai, mãe, jovem, que se encontra psicologicamente perdido,
espiritualmente descrente, a clamar num triste deserto por terras pra um
coletivo de pés; por simples respostas para tão amargos reflexos do desemprego,
que fere sem dó ou piedade o corpo e a alma de toda uma família, do seu popular
chefe, o (a) desempregado (a), aos membros inocentes, talvez também dependentes
de oportunidades de trabalho, do primeiro emprego. Terras estas, que às vezes
são falsamente encontradas em desesperançados e exclusos poços, secos e
profundos, a não ser cheios de agonia, de tristeza, de dor e dum silencioso
clamor que ecoa através de trágicas imagens sociais refletidas das drogas, da
prostituição e da marginalidade em geral.
O
desemprego é simplesmente, além de covarde, agonizante, incompreensivo, desleal
e desrespeitoso, pois ignora nosso valor, antes respeitado por fulanos; nossa
capacidade, até pouco acreditada por sicranos; a condição de amigo, que por
vezes era transparecida por um alguém que some; ignora o prazer de se querer
viver novamente, como se fosse uma condição invisível. O desemprego ignora
simplesmente a ideia de próximo, de ser racional, de um ser passível de fome e
sede, também de justiça.
O
desemprego é solidão; é uma miserável realidade que geralmente é sentida com
maior intensidade pelo (a) trabalhador (a) assalariado (a), carente de uma
melhor formação profissional, que possivelmente independa do seu natural
querer, mas sim da condição de vitima do inocente vivenciar de conjunturas sociais
ainda mais desiguais do que as vividas nos dias de hoje; o desemprego é mais
sentido por aquele trabalhador que mesmo trabalhando, como escravo do salario
mínimo brasileiro, ainda vive um dia-dia de exclusão; de dividas; do não
direito a uma básica dignidade; excluso do anseio de ter um Bem Viver familiar um dia concreto, real.
O
desemprego faz doer com mais ardor o viver do pobre, do sofrido e real pagador
de impostos, que vive a sonhar com saúde, educação, moradia e emprego de
qualidade, pois estes impostos que paga deveriam ser simplesmente pra isso; o viver daquele que é levado a deixar um subemprego
formal, fato comum na vida do trabalhador privado, e quando recebe seus
proventos da rescisão contratual de trabalho, geralmente, só dá pra cobrir a
divida acumulada, e olhe lá, passando o coitado desemprego a viver numa
condição literalmente zerada e a ser, mais ainda, vitima da incompreensão social,
sentido na pele, para não morrer de fome, a forçada exposição a uma nova e
indigesta geração de divida, sem prazo de pagamento, recheada duma crucial
desconfiança, divida essa que talvez seja empurrada novamente, com a conquista de um novo emprego.
A
capacitação profissional é fundamental na luta contra o indigesto desemprego,
mas não é o bastante para vencê-lo, pois muitos desempregados (as) que talvez tenha ela em seu currículo, amargam o desprazer de vê e saber que
pessoas sem dom, preparo, responsabilidade, ocupam oportunidades que
deveriam ser suas, em muitos casos só acumulando empregos e em alguns casos que só vão buscar o
salario, e quando trabalham tratam mal quem depende de seu trabalho, fazendo sofrer um alguém
que, além de sonhar, fez e faz por onde um dia ser o real dono de tal oportunidade, no
mínimo a de bem servir seu próximo, seu irmão, a sociedade, sua condição de capaz.
Mas a parte
mais triste e amarga, desta realidade de desemprego, da qual sinto na pele
hoje, é saber que passando-se dos 40
anos, em pleno vigor físico e família pra manter, o
trabalhador e a trabalhadora, pra muitos, já é tido para o mercado
de trabalho como velho (a).
Aos meus 18 anos, sem ter conseguido
passar da 5ª serie do fundamental na escola, tive que parar de estudar e partir em
busca da minha sobrevivência pessoal, incluindo nesta busca
algumas frustradas migrações, de onde tirei ou absorvi bastante lição para meu
viver. De 2004 a 2007, após mais de 20 anos sem estudar, através de supletivo, conclui
o 2º grau, hoje Ensino Médio, mas minha consciência de 5ª serie, graças a Deus e o mundo, já era o
suficiente para saber que nosso olhar para o desemprego tem que ir além da
penúria e da lastima, mas também que pra isso se faz necessário menos egoísmo e
mais oportunidades; menos individualismo e mais racionalidade; menos
desrespeito e mais igualdade em direito; menos mentira e mais verdade!
Antes a
procura por emprego era através de placas: Há Vagas e Não Há Vagas, penduradas
a frente das fabricas, comércio, etc., hoje, pelo menos aqui em Campina Grande –
PB , resume-se mais aos SINEs, estadual e municipal. Mas, além de sentirmos na pele, a gente vê que o sofrimento do trabalhador desempregado só tá bem maquiado, pois se acabou a triste via
sacra cotidiana do desempregado, rua acima, rua abaixo, com o desemprego nas costas e hoje, com o mesmo desemprego nas costas, o mesmo madrugar, fica o trabalhador dividido: vai no SINE do prefeito ou vai no SINE do governo, além disso tendo que amargar, após longa espera, trabalhadores públicos (estabilizados para o direito de trabalhar por quem li paga, o trabalhador privado) com um péssimo humor, como se fossem empregados de siglas politicas, psicologicamente despreparados para atender ou acolher o já desestimulado e desacreditado desempregado.
Vejo o desemprego como um grande conjunto vazio, trevoso, cego e anormal,
porém, o vejo também como unitário, onde aqui acolá tem um humilde ser racional
ou humano preso nele, clamando para ser novamente luz social, para ser libertado! Enfim, amargando o
desemprego, acredito que o grande desafio de um (a) desempregado (a) é simplesmente
esse, de alguma forma conseguir se libertar desta cela antissocial.

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